Há três décadas, a cantora Madonna enfrentava uma das fases mais tensas de sua carreira: durante as filmagens do longa Evita (1996), no qual interpretou a icônica Eva Perón, a artista recebeu ameaças de morte vindas de fervorosos apoiadores do peronismo na Argentina.
A polêmica ressurgiu esta semana, lembrando o lançamento da canção “You Must Love Me” — composta por Andrew Lloyd Webber e Tim Rice especialmente para o filme, e que mais tarde ganharia o Oscar de Melhor Canção Original.
O contexto político: Evita como símbolo nacional
Em fevereiro de 1996, mais de quarenta anos após a morte de Eva Perón — esposa do então presidente argentino Juan Perón —, a memória da ex-primeira-dama ainda despertava paixão e disputa política no país.
As paredes de Buenos Aires exibiam mensagens como “Viva Evita! Fora com Madonna!” (do espanhol “Madonna, vete!”), enquanto grupos de apoiadores de Eva protestavam contra o fato de uma estrela pop norte-americana interpretar uma de suas maiores heroínas.
Na época, o próprio presidente Carlos Menem chegou a chamar o filme de “vergonha nacional”. O jornal Variety relatou, em 25 de janeiro de 1996, que Clara Marín, antiga secretária de Perón, teria declarado:
“Queremos Madonna viva ou morta. Se ela não for embora, eu a matarei.”
O empresário da cantora, Freddy DeMann, disse à Variety que estava “a um minuto de tirá-la do país”. Já a Washington Post noticiou que uma legisladora peronista propôs declarar Madonna, o diretor Alan Parker e toda a equipe “personas non gratas” na Argentina.
Reação das autoridades e bastidores das filmagens
Embora o produtor Andy Vajna tenha desmentido o caso — chamando as ameaças de “mentirosas” e assegurando que o país apoiava as filmagens por razões econômicas —, o Ministério do Interior argentino reforçou a segurança da equipe.
Um policial local chegou a afirmar ao jornal Página/12 que a maior preocupação não era um atentado físico, mas sim o risco de Madonna ser hostilizada publicamente.
Ainda assim, a cantora tentou compreender a complexidade da personagem. Em entrevista ao Washington Post, relatou-se que ela conversou com antigos colaboradores de Eva para estudar sua personalidade e hábitos:
“Ela comia chocolates? Bebia uísque ou chá? Trocava de vestido com frequência? Mostrava carinho com Juan Perón em público?”, perguntou Madonna aos entrevistados, buscando autenticidade no papel.
Fãs contra ameaças e apoio popular
Apesar da controvérsia, Madonna também contou com apoio de fãs argentinos. Em 12 de fevereiro de 1996, a Associated Press noticiou um ato organizado em defesa da cantora. Uma pesquisa da época revelou que 62% dos argentinos acreditavam que ela era “a escolha certa” para o papel.
Uma fã identificada como Sandra Matos declarou:
“Ela é a melhor atriz e tem o direito de fazê-lo. Ninguém tem o direito de ameaçar sua vida ou dizer que vai queimá-la viva. Se aquela senhora é peronista e segue o exemplo de Evita, deveria amar o próximo, não atacá-lo.”
Do caos político ao sucesso mundial
Apesar das ameaças, as filmagens seguiram conforme o planejamento — com cenas rodadas na Casa Rosada, estações de trem e locais históricos de Buenos Aires. O próprio Menem, após conhecer Madonna pessoalmente, autorizou o uso do palácio presidencial para a sequência de “Don’t Cry for Me Argentina”, encantado quando ela interpretou “You Must Love Me” exclusivamente para ele.
As gravações depois migraram para a Inglaterra e Hungria, onde os sets foram recriados para imitar a capital argentina.
Em uma reportagem da MTV News, o jornalista Kurt Loder comentou que Madonna parecia “apenas vagamente ciente” das ameaças, já que estava “ocupada demais em Londres gravando os vocais da trilha sonora”.
Recepção e legado
Quando o filme estreou em solo argentino, em 1997, enfrentou manifestações violentas e vandalismo em cinemas, segundo o Los Angeles Times. Ainda assim, registrou boa bilheteria e atraiu curiosos, apesar do clima de tensão.
Globalmente, o longa foi um sucesso de crítica e público. Além de vencer o Oscar por “You Must Love Me”, Madonna conquistou o Globo de Ouro de Melhor Atriz por sua interpretação de Eva Perón.
No discurso de agradecimento, ela declarou:
“Fazer este filme foi uma aventura incrível para mim — artística e espiritualmente. E eu aprendi muito.”
Fonte: rollingstone.com