Poucos artistas traduzem o mundo ao redor com tanta atenção e constância quanto Josh Ritter. Ao longo de mais de duas décadas, o músico norte-americano lançou 13 álbuns de estúdio e sete EPs, além de ter publicado dois romances. E, como um verdadeiro artista moderno, ele mantém ativo seu Substack, o Livro dos Júbilos de Josh Ritter, onde escreve regularmente sobre arte, vida e criação.
Por isso, não surpreende que Ritter recorra a uma metáfora precisa e poética para descrever o sentimento de sair em turnê após lançar um novo álbum.
“Meu tio trabalhava no serviço florestal”, conta. “Eles jogavam peixes nos lagos das montanhas. Semeavam esses lugares com trutas e outras espécies.”
Assim como os lagos, Ritter sente que precisa “repovoar” seu próprio universo criativo — lançando canções ao vento e esperando que algumas delas voltem a ele transformadas.
Um ciclo que começa e termina no palco
Na tarde fria de fim de novembro de 2025, Ritter estava de volta ao Brooklyn Steel, casa de shows em seu bairro, Greenpoint (Brooklyn), para o último show de um ano exaustivo.
Ele havia passado a maior parte de 2025 viajando sem parar, sobretudo depois do lançamento de I Believe in You, My Honeydew (Eu Acredito em Você, Minha Melada), seu terceiro disco em três anos.
Num raro momento de pausa no camarim, ele abriu uma cerveja e refletiu sobre o caos criativo que acompanha sua vida:
“Preciso fechar o círculo”, disse. “Ele começa quando escrevo uma enxurrada de músicas. Quando algumas delas começam a se conectar, sei que é hora de fazer um disco. Coloco todo o meu amor ali — e o show é o culminar de tudo.”
Naquela noite, o músico apresentou sete das dez faixas do novo álbum em um setlist de 20 músicas.
Entre elas, destacou-se “Truth Is a Dimension (Both Invisible and Blinding)”, que ele identifica como o fecho do ciclo criativo.
“Essa música é curiosa porque não lembro de tê-la escrito”, disse Ritter à Rolling Stone. “É aquele estado de transe criativo — quando você simplesmente desaparece no que está fazendo. É maravilhoso, mas significa que você não está lá para se observar. Comecei a pensar: quanto disso vem de mim e quanto vem dessa musa que sempre me acompanha?”
A dança com a musa
Essa reflexão acompanha Ritter desde o início de sua carreira. Ele lançou seu primeiro álbum, Josh Ritter, em 1999, quando ainda era estudante do Oberlin College. Desde então, o compositor firmou um caminho de respeito e colaboração: Bob Dylan o elogiou, Bob Weir gravou suas músicas, Joan Baez o convidou para compor com ela, John Prine dividiu o palco com ele e Jason Isbell produziu um de seus discos.
Mas para Ritter, a arte não é apenas sobre estar entre grandes nomes — é sobre cultivar uma relação íntima com a inspiração.
Criado em Moscou, Idaho, Ritter viveu entre Ohio, Escócia e Rhode Island antes de se fixar em Brooklyn, onde mora com suas duas filhas pequenas. Hoje, aos 49 anos, ele vê a criação artística como ponte e refúgio: uma forma de estar no mundo e escapar dele ao mesmo tempo.
Quando compreendeu isso, ele deu um nome à sua musa: “My Honeydew”.
A partir daí, passou a escrever canções para a musa, em vez de esperar que ela viesse a ele.
Essa relação espiritual e quase lúdica com a inspiração guiou todo o processo de I Believe in You, My Sweetheart, gravado com a Royal City Band em Cannon Falls, Minnesota, durante o verão de 2024.
O resultado é um disco que mistura autoconfissão e transcendência, mostrando que, para Josh Ritter, a arte talvez seja mesmo como jogar peixes nos lagos — um ato de fé, generosidade e entrega.
O artista que não se vê como referência
Paradoxalmente, essa forma de pensar deixa pouco espaço para Ritter avaliar seu próprio peso na música contemporânea.
Com mais de duas décadas de carreira, ele se tornou uma figura influente no folk moderno, admirado por pares e por uma nova geração de compositores. Ainda assim, ele raramente se permite pensar nisso.
Ele recorda com carinho Joan Baez, que o orientou em sua primeira turnê europeia — e até lhe comprou um terno em Roma. Mas quando o assunto é o impacto de sua própria obra, Ritter prefere se ver como parte de um contínuo criativo maior:
“É fascinante pensar que os últimos 120 anos de música parecem eternos”, diz ele. “Mas houve um tempo, não faz tanto, em que a música não existia assim, comercializada. As canções simplesmente viajavam pelo mundo, em panfletos ou cantadas em volta de fogueiras. Sinto-me honrado por ter aprendido com tanta gente, mas no fundo acho que estamos todos na mesma jornada.”
De volta à estrada, com leveza e gratidão
Em 2026, Ritter volta à estrada em uma turnê solo que percorrerá teatros e auditórios pelos Estados Unidos, começando em janeiro, em Portsmouth (New Hampshire), e encerrando em maio, no lendário Ryman Auditorium, em Nashville.
Assim como seu último álbum — uma carta aberta à musa — ele enxerga essa turnê como uma celebração dos lugares e pessoas que mantêm a música viva.
“Quero que todos sintam o mesmo que eu sinto com a música”, afirma. “Por algum motivo, fui protegido de ter que tomar decisões erradas ou fazer grandes sacrifícios. Sou muito grato por isso. Não me importo se as coisas precisam ser maiores — só quero continuar fazendo o que é divertido.”
Com seu senso característico de humildade e humor, ele sorri e completa:
“Ouvi dizer que a melhor sala para tocar tem uns 800 lugares — o público em pé na frente, bar no fundo. Acho que é isso mesmo. Você pode ter muito, mas é ‘apenas o suficiente’ que te mantém trabalhando e fazendo o que ama.”
Fonte: rollingstone.com





