Por Dr. Noa Kageyama, PhD — O Músico à Prova de Balas
O psicólogo do desempenho Noa Kageyama analisa pesquisas sobre como atletas lidam com a ansiedade de performance e mostra como essas estratégias podem ajudar músicos a vencer o medo do palco.
A ansiedade de desempenho é praticamente universal. Ela afeta músicos de todos os níveis — do estudante iniciante ao profissional experiente. E, embora seja comum, está longe de ser agradável: pode facilmente arruinar a experiência de tocar ao vivo.
O que dizem as pesquisas?
Há décadas, atletas vêm sendo estudados em relação a como treinam suas habilidades mentais para competir sob pressão. Mas, surpreendentemente, até recentemente quase não havia estudos semelhantes com músicos.
Um dos grandes problemas das pesquisas anteriores é que raramente se avaliava o nível de ansiedade dos participantes antes dos testes — algo essencial, já que nem todos os artistas sentem o nervosismo da mesma forma.
Alguns o consideram paralisante, outros apenas desconfortável, e há quem até veja um certo benefício em sentir aquele frio na barriga antes de se apresentar.
Então surge a questão central: as técnicas mentais usadas por atletas podem realmente ajudar os músicos mais ansiosos — aqueles que têm medo de avaliações negativas ou falta de confiança em suas próprias capacidades?
E, se sim, quais estratégias funcionam melhor?
O estudo
Uma equipe de pesquisadores (Lubert et al., 2023) recrutou músicos, dançarinos e atores de uma das principais universidades de artes cênicas da Áustria.
Dos voluntários, nove foram selecionados — seis músicos, dois dançarinos e um ator — todos entre 20 e 26 anos, com uma média de 15 anos de prática em suas áreas e 26 horas semanais de treino.
Foram escolhidos justamente os que apresentaram níveis mais altos de ansiedade, medo de avaliação e baixa autoconfiança.
Fase 1 — Avaliação inicial
Cada participante fez uma apresentação de cerca de quatro minutos diante de um júri, com monitoramento da frequência cardíaca e questionários rápidos sobre ansiedade e confiança.
Depois, foram entrevistados sobre como se sentiram, o que pensaram durante a execução e quais estratégias mentais, se alguma, utilizaram.
Fase 2 — Treinamento mental
Durante 10 semanas, o grupo participou de sessões quinzenais de treinamento psicológico.
Os conteúdos incluíam rotinas pré-performance, definição de metas, respiração profunda, aclimatação ao estresse e relaxamento físico.
Toda semana, os participantes enviavam vídeos de apresentações — práticas ou reais — aplicando as novas técnicas.
Fase 3 — Avaliação final
Ao final do período, todos voltaram a tocar o mesmo repertório para o mesmo júri, repetindo medições de frequência cardíaca, níveis de ansiedade, confiança e uma última entrevista reflexiva.
E quais foram os resultados?
Ansiedade
Os níveis de ansiedade caíram de forma significativa. A maioria também mostrou frequência cardíaca mais baixa na segunda apresentação.
Um dos participantes comentou:
“Não tive tantas palpitações. Normalmente isso acontece comigo por causa da excitação e do estresse, mas dessa vez não.”
Outro, porém, destacou algo interessante: uma frequência cardíaca mais alta nem sempre é ruim — pode indicar atenção e energia.
“Cheguei bem cansado por causa da semana difícil, então fiquei até feliz de sentir um pouco de nervosismo — foi o que me manteve alerta.”
Confiança
Os artistas também relataram aumento de confiança e maior controle emocional.
“Agora eu sei que posso tocar bem, e também aprendi como lidar melhor com o nervosismo.”
Essa confiança extra os levou a arriscar mais e se preocupar menos com críticas.
“Na verdade, não tenho mais medo de outros músicos.”
Qualidade do desempenho
O painel de jurados avaliou as novas apresentações com nota média 8,11, um salto em relação à nota anterior 6,64 (numa escala de 1 a 10).
Embora parte dessa melhora pudesse vir simplesmente da prática contínua, os relatos pessoais sugerem algo mais profundo — uma transformação na forma como se relacionavam com o palco.
Uma nova experiência no palco
Muitos participantes descreveram se sentir empoderados pelas novas habilidades:
“Fiquei orgulhoso. Pensei: ‘Sim, nasci pra isso!’”
Outros relataram momentos de flow total:
“Hoje foi fantástico, entrei completamente no personagem.”
Houve quem finalmente sentisse que tocou como sempre quis:
“Foi exatamente como eu esperava — como sempre quis que fosse.”
Mesmo em situações difíceis, um deles observou:
“Foi uma loucura, mas, de algum modo, tudo correu bem.”
Alguns passaram a se preocupar menos com a técnica e mais com a música em si:
“Consegui realmente ouvir o que queria tocar, sem ficar preso ao lado técnico.”
E muitos começaram, pela primeira vez, a se divertir no palco:
“No início eu só queria que acabasse logo. Hoje, estava curtindo o momento — até segurei a última nota.”
Mas, nem tudo foram flores
A mudança não ocorreu da noite para o dia.
Houve altos e baixos ao longo das 10 semanas, mas os momentos de sucesso ajudaram a criar resiliência. Os participantes aprenderam a controlar o nervosismo, ganharam autoconfiança e se sentiram mais livres para arriscar e aproveitar a performance.
Enfim, as conclusões
Os pesquisadores reconhecem que a amostra foi pequena, mas os resultados são promissores.
Eles indicam que é possível treinar a mente para tornar as experiências de performance mais consistentes e prazerosas — mesmo para quem sempre sofreu intensamente com ansiedade.
Cada artista reagiu melhor a diferentes técnicas, então não há uma solução única. O segredo está em experimentar e descobrir o que funciona melhor para você.
Sobre as técnicas-chave mencionadas no estudo:
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Rotinas pré-performance: respirar fundo, relaxar músculos tensos e direcionar o foco para o som, o ritmo e a intenção musical.
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Treinamento de aclimatação: praticar sob pequenas doses de ansiedade para “imunizar-se” contra o estresse real das apresentações.
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Gravação das performances: revisar semanalmente os vídeos para observar progresso e experimentar as novas estratégias mentais.
Referência:
Lubert, V. J., Nordin-Bates, S. M., & Gröpel, P. (2023). Efeitos de intervenções personalizadas para o controle da ansiedade em artistas performáticos suscetíveis a travar sob pressão: um estudo de caso coletivo de métodos mistos. Frontiers in Psychology, 14. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2023.1164273
Sobre o autor do estudo:
Noa Kageyama, psicólogo do desempenho e ex-aluno da Juilliard School, ensina músicos a tocar melhor sob pressão por meio de aulas, treinamento e um curso on-line. Vive em Nova York com sua esposa, pianista, seus dois filhos e uma paixão assumida por tecnologia e produtos da Apple.
Fonte: hypebot.com





