Na manhã de sábado, o presidente Donald Trump anunciou que as forças dos Estados Unidos capturaram o líder venezuelano Nicolás Maduro após uma operação militar em Caracas, capital da Venezuela.
Horas depois, em pronunciamento feito de Mar-a-Lago, Trump declarou que os EUA governariam o país “até uma transição segura, adequada e criteriosa”. A notícia provocou reação imediata da comunidade internacional, com governos e organizações globais observando com preocupação a escalada política na região.
Entre os primeiros a se manifestar estavam músicos e figuras culturais da diáspora venezuelana, conhecidos por sua postura crítica ao regime chavista e por sua presença crescente na cena global. Desta vez, porém, as declarações foram marcadas por silêncio estratégico e cautela.
A ascensão global da música venezuelana
Nos últimos anos, a cena musical venezuelana se consolidou como uma das forças mais inovadoras da música latina contemporânea.
Desde o sucesso viral de Danny Ocean com “Me Rehúso” (2016) — que se tornou um hino sobre amor e migração — até o triunfo do grupo Rawayana, vencedor do Grammy 2025 de Melhor Álbum de Rock ou Alternativo Latino com Quem Traz os Clarins?, o país vive uma explosão cultural global.
Outros nomes como Elena Rose, premiada no Grammy Latino, e o rapper Akapellah também usaram suas carreiras internacionais para defender causas democráticas e chamar atenção para a crise política e humanitária em seu país de origem.
Reações contidas e preocupações políticas
Diante da confirmação da operação militar americana, as primeiras manifestações desses artistas nas redes sociais foram comedidas.
Danny Ocean, que se apresentou no Prêmio Nobel da Paz em Oslo, no mês anterior, e que já havia prometido não cantar na Venezuela até o retorno da democracia, compartilhou um post da líder da oposição María Corina Machado.
Na publicação, Machado celebrou a ação dos EUA e pediu “o reconhecimento imediato de Edmundo González Urrutia como legítimo presidente da Venezuela”.
González Urrutia, atualmente exilado na Espanha, foi o candidato de oposição nas eleições de 2024, após Machado ter sido impedida de concorrer pelo governo Maduro.
Entre o alívio e a apreensão
Apesar do potencial fim de uma era autoritária, o tom predominante entre artistas e ativistas venezuelanos tem sido prudente. Muitos apontam que a intervenção estrangeira, mesmo sob o pretexto de restaurar a democracia, pode abrir novas feridas políticas e humanitárias.
Ainda assim, há um sentimento de esperança silenciosa — de que, finalmente, uma mudança duradoura possa emergir no país que formou uma das diásporas culturais mais resilientes da América Latina.
Elena Rose, que colaborou com Ocean e com o artista urbano Jerry Di no nostálgico “Caracas en el 2000”, compartilhou apelos à oração. “Esta é uma guerra espiritual”, escreveu ela em sua conta no Instagram. “Fique na luz.”
Da mesma forma, a cantora e compositora em ascensão Joaquina postou a frase evocativa “Abajo cadenas“ (Abaixo as correntes) — uma referência poderosa a um verso do hino nacional da Venezuela.
Rawayana e Akapellah reagem com sutileza à captura de Maduro
Enquanto a Venezuela digeria a notícia da captura de Nicolás Maduro pelas forças dos EUA, a banda Rawayana manteve silêncio público durante o sábado. Ainda assim, o lançamento de seu novo álbum, divulgado no dia de Ano Novo, acabou parecendo profeticamente sincronizado com os acontecimentos.
A faixa de abertura, “Si Te Pica Es Porque Eres Tú” (Se coça é porque é você), traz batidas vibrantes e uma crítica mordaz logo nos primeiros versos. O vocalista Beto Montenegro canta:
“Feliz Ano Novo, Rawa deseja a você / e que os filhos da p*** finalmente vão embora.”
A música logo se espalhou pelas redes sociais, compartilhada por venezuelanos ao redor do mundo como uma espécie de trilha sonora involuntária para o colapso do regime.
Uma balada de exílio e memória
No domingo seguinte, o grupo publicou uma nova faixa, “Tonada por Ella”, uma balada folk minimalista escrita por Montenegro em parceria com Servando Primera — compositor e produtor venezuelano baseado em Miami, conhecido por colaborar com Nathy Peluso, Christina Aguilera e Kali Uchis.
A banda acompanhou o lançamento com um gesto simbólico e potente: compartilhou um número de telefone que o público podia discar para ouvir um áudio raro do escritor Arturo Uslar Pietri, refletindo sobre o fracasso estrutural da Venezuela como petroestado.
O uso dessa gravação conferiu à canção um peso histórico e político inesperado, conectando a dor do exílio contemporâneo à herança intelectual do país.
O passado recente de censura e resistência
Essa não foi a primeira vez que o Rawayana se viu no centro de uma tempestade política. Em 2024, o grupo teve de cancelar sua turnê nacional após o sucesso de “Veneka”, parceria com o rapper Akapellah, receber uma reprimenda direta de Nicolás Maduro.
A faixa ressignificava um termo pejorativo usado contra mulheres migrantes venezuelanas, transformando-o em símbolo de orgulho e identidade, o que irritou o então presidente — em meio a denúncias de fraude eleitoral.
Apesar da controvérsia, “Veneka” se tornou um triunfo artístico e social, culminando na vitória do Grammy Latino de 2025, que consolidou o Rawayana como um dos expoentes mais importantes da música alternativa latina.
Vozes de esperança cautelosa
Entre as reações à nova virada política, a de Akapellah se destacou pela “prudência” emocional.
Em um post publicado no Instagram na noite de sábado, o rapper escreveu:
“Um momento de transição está chegando. Não sabemos o quão difícil será, mas todos sabíamos que precisávamos disso.”
A mensagem ecoou entre artistas e fãs como um misto de alívio e apreensão — sentimento comum entre os integrantes da diáspora venezuelana, que enxergam na música uma forma de resistência, memória e reconstrução.
Fonte: rollingstone.com





