Paul Kooiker*

Charli XCX transforma “Wuthering Heights” em pop gótico deslumbrante

O álbum companion de Charli XCX para o filme Wuthering Heights, de Emerald Fennell, é um LP completo, não apenas uma trilha incidental, que abre mais uma camada na sensibilidade em constante evolução da artista. Ele rompe com o dance-pop hiperacelerado de “Brat” (2024) e de seu disco de remixes, sem deixar de soar profundamente, intensamente, brat.

Clima de charneca: do hyperpop ao moors-core

Nas charnecas frias e ventosas onde a história se passa, Charli troca a pista de dança por um clima gótico-romântico.
Ela contou que queria capturar “a sensação de estar nas moors, com um frio cortante”, e consegue: o álbum é praticamente um manifesto “moors-core”, cheio de atmosfera, neblina sonora e drama.

Embora ligado ao filme, o disco não funciona como trilha tradicional nem como score. É um álbum coeso, de canções completas, que adiciona uma nova textura à estética de Charli: menos club e mais ruína vitoriana, menos euforia hedonista e mais obsessão romântica, com referências que vão das irmãs Brontë a Kate BushCure, pop oitentista e ecos de Nine Inch Nails.

John Cale, cordas sombrias e a casa que engole tudo

Logo de início, quem aparece não é Charli, mas John Cale, lenda viva que ajudou a inventar o clima gótico com o Velvet Underground.
Em “House”, ele recita um poema lento e sinistro sobre cordas que gemem como se fossem o próprio assoalho apodrecendo de uma mansão vitoriana:

“I think I’m going to die in this house.”

Charli e Cale saboreiam a frase com um prazer mórbido que parece saído de um conto de Edgar Allan Poe. Essa faixa abre a porta para o tom do álbum: denso, assombrado e quase sempre à beira do colapso emocional.

Parede de som, angústia exposta e drama maximalista

Em “Wall of Sound”, Charli puxa o ouvinte para um redemoinho de orquestração espessa e repetitiva, cantando sobre tensão inacreditável e a sensação de não conseguir escapar.
Ao tirar o brilho futurista do hyperpop e desacelerar, ela deixa os nervos ainda mais expostos – a vulnerabilidade fica mais crua, mais perto do ouvido.

Apesar da temática pesada, o álbum não afunda em melancolia arrastada.

  • “Dying for You” mistura letras sobre perder litros de sangue, deitar no asfalto e se incendiar por amor com uma base house barulhenta e tensa – o melodrama afetivo encontra a pista de dança.

  • Em “Chains of Love”, cicatrizes viram armadura numa balada de clima oitentista, grandiosa e triste na medida certa.

  • Sky Ferreira aparece em “Eyes of the World”, elevando o exagero dramático a um ponto quase operático, num dos ápices emocionais do álbum.

Luz na neblina: encerramento com esperança torta

Nos minutos finais, Charli deixa a luz entrar, ainda que de forma tímida.
“My Reminder” é um synth-pop delicado e empático sobre um relacionamento complicado entre irmãos, ecoando de longe a dinâmica Heathcliff/Catherine, mas sem o subtexto incestuoso do livro – decisão sábia e moderna.

Ela encerra com “Funny Mouth”, uma das faixas mais pesadas e acusatórias do disco, para cravar a frase:

“Se há uma luz, não a deixe apagar.”

É um fechamento perfeito: depois de tanto frio, tanto ressentimento e tanto fantasma sentimental, sobra uma faísca de sobrevivência.

Fonte: rollingstone.com

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